Filipe Consciência

As Chefs de estrela Michelin


 


Estava eu a ler sobre o restaurante da Carme Ruscalleda, Sant Pau, de três estrelas Michelin, localizado perto de Barcelona, e lembrei-me de procurar quantas Chefs é que têm a distinção máxima de três estrelas Michelin. E, para minha surpresa, só há seis. Sim, leram bem. Só seis mulheres conseguiram alcançar as desejadas três estrelas. Para se perceber melhor o pouco que é, existem mais de cem homens com três estrelas Michelin em todo o mundo.


 


O que é tão curioso, como triste. Curioso, porque a cozinha é, desde sempre, associada mais às mulheres do que aos homens. Triste, porque acredito que este número tão baixo se deva essencialmente à discriminação que as mulheres sofrem no mundo laboral. Principalmente, num mundo dominado pelos homens, como é o mundo da alta cozinha.


 


Já há um tempo tinha lido numa publicação inglesa que, um dos principais motivos para não haver tantas mulheres na alta cozinha, se devia à incompatibilidade desse mundo tão absorvente com a função de mãe. Porém, não me conseguem convencer que a “profissão” de mãe é o maior entrave, e que muitas mulheres não viram os seus futuros promissores na alta cozinha destruídos somente por usarem saia.


 


A Elite Traveler foi falar com algumas destas mulheres Chefs e, num artigo bem interessante publicado recentemente no seu site, revela como é que elas conseguem obter tamanho sucesso num mundo de homens, onde apenas 4,7% dos Chefs e cozinheiros principais nos Estados Unidos da América são mulheres, enquanto que no Reino Unido a percentagem não chega a ultrapassar os 20%. E se tivermos apenas em conta restaurantes de alta cozinha, a percentagem desce ainda mais.


 



 


Clare Smyth, Gordon Ramsay protégé, única Chef no Reino Unido a conseguir as três estrelas, tal como sucede em Espanha com Carme Ruscalleda, é uma das entrevistadas. Clare começa por admitir que sentiu que tinha mais a provar quando assumiu a cozinha do restaurante Gordon Ramsay, porque era uma mulher.


 


“Não queria que ninguém olhasse para mim como uma mulher Chef e pensasse “É uma fraca.”, ou “ela está cansada” ou “corta tu”, conta Clare. “Eu ponho muita pressão em mim mesma para não mostrar fraqueza, o que provavelmente não teria de fazer se as pessoas não me julgassem assim tanto.”


 


“Quando era mais nova, só queria garantir que não ia revelar nenhum sinal de fraqueza. Não queria que girasse tudo à volta disso, queria que se concentrassem apenas no trabalho.


 


Depois de seis anos como Chef do restaurante Gordon Ramsay, Smyth conseguiu um respeito considerável na indústria da alta cozinha, sendo descrita como uma Chef responsável por uma cozinha muito séria.


 



 


Hélène Darroze, Chef francesa com duas estrelas Michelin, é a primeira a admitir o desafio que é conciliar uma carreira tão exigente, como a de Chef, quando se é mãe. “É muito difícil para uma mulher fazer este tipo de trabalho e estar numa cozinha. Como costumava dizer, não estou aqui ao fim do dia a ler histórias às minhas filhas e trabalho muito. Ontem, comecei a trabalhar às 9 e só terminei às 11, por isso, só tive meia hora para estar com elas. Mesmo que as mentalidades mudem, continua a ser difícil. Tens sempre de fazer uma escolha numa altura da tua vida. E essa escolha não é fácil de tomar.”


 


Mas a mãe de duas meninas, que trabalhou no restaurante Le Louis XV do Alain Ducasse, e que agora tem restaurantes em três países, diz que ser mulher nunca a impediu de ser uma Chef com sucesso.


 


Darroze diz ainda que, mesmo sendo a única mulher na cozinha, tem de se ser honesta e pedir ajuda, se for necessário. O Segredo para ter sucesso num mundo de homens é “nunca esquecer que és uma mulher e não tentar ser um homem, porque és uma mulher e deves ter orgulho disso.”


 


Clare Smyth garante que o segredo passar por “mostrar nas primeiras semanas como se é um membro valioso para a equipa, porque todos querem bons membros nas suas equipas.


 



 


Apesar destes dados, as percentagens de mulheres à frente de cozinhas Michelin têm vindo a aumentar. Em 2013, Douce Steiner foi a primeira mulher na Alemanha a conseguir duas estrelas e, neste ano, foram atribuídas estrelas a quatro mulheres.



E ainda há casos de cozinhas entregues praticamente só a mulheres, como acontece no Le Gavroche, que tem duas Sous Chef, para além da Chef Rachel Humphries.


 


Rebecca Burr, também Chef e editora do guia Michelin para o Reino Unido e Irlanda, admite as dificuldades colocadas às mulheres, o que faz com que a profissão de Chef seja ainda mais desafiante. “É um trabalho duro, e eu acredito que estas mulheres são as primeiras a dizê-lo.” Porém, e como Burr conclui, “as Chefs tem um toque diferente e necessitamos de ver mais delas.”


 



 


E eu não podia estar mais de acordo. Dos restaurantes mais diferenciados que já visitei, penso que só um estava sob a batuta de uma Chef. O Avenue, da Chef Marlene Vieira. E foi fácil perceber esse toque feminino.



Esperemos que as mentalidades efetivamente mudem, e evoluam, que os homens deixem de ter medo de trabalhar com mulheres melhores do que eles, e que os restaurateurs passem a confiar mais nas mulheres para assumir um lugar de destaque nos seus restaurantes. E, já agora, que uma Chef portuguesa consiga o feito de alcançar a primeira estrela Michelin portuguesa.


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