Há quem defenda a ideia de que não devemos voltar aos locais onde fomos felizes, para não correr o risco de estragar as memórias que temos desses mesmos locais. Ora aplicando essa ideia aos restaurantes, e apesar de não concordar inteiramente com ela, porque quero acreditar que a experiência será sempre boa, a verdade é que se não tivesse regressado ao Belcanto, continuaria a considerá-lo como sendo o melhor restaurante "do meu mundo". E agora, já não o posso afirmar.
Fomos ao Belcanto pela primeira vez assim que abriu as suas portas sob o comando do Chef José Avillez e regressámos logo a seguir à conquista da primeira estrela Michelin. A experiência, principalmente da segunda vez, foi transcendente. A conjugação dos sabores, a inovação dos pratos e a excelência no serviço e na qualidade deixou-me absolutamente rendido.
Depois disso, tive a sorte e o privilégio de conhecer outros restaurantes, bem mais premiados. E, apesar de ter tido experiências tão boas, ou até melhores, o Belcanto continuava a ocupar o lugar cimeiro no meu top de restaurantes.
Com a promessa de regressar ao restaurante após a conquista da segunda estrela Michelin, reservámos para um dos últimos dias do ano de 2014, e à terceira o restaurante caiu uns bons lugares no meu top. Já agora, e antes de prosseguir, um pequeno aparte para elogiar o serviço de reservas pelo telefone. Gosto muito do facto de saberem logo quantas vezes fomos, quando, e quais os outros restaurantes do Chef que já conhecemos (todos). Para além da extrema educação e simpatia.
Mas passando à análise do restaurante, quanto ao serviço não tenho um único reparo a fazer. Continua a ser dos melhores (senão o melhor) serviço em Portugal. Rápido, profissional e atencioso. Desde a referência, do primeiro ao último minuto, à data que celebrávamos quando lá fomos, ao bolo que nos foi oferecido para comemorarmos essa data, e ao cuidado com as alterações ao menu para adequá-lo às restrições alimentares relacionadas com a gravidez da minha mulher. Tudo irrepreensível.
O "problema" esteve relacionado "unicamente" com a comida. Essencialmente, com algumas falhas na finalização dos pratos e nas combinações escolhidas.
Após estudo da ementa, escolhi o menu Maresia (€90) e a minha mulher o menu Clássicos (€90), cuidadosamente alterado. Antes dos menus, a refeição começou com o momento já tradicional do que parece, mas não é, e do que não parece, mas é.

Esfera de Porto tónico

Trilogia de azeitona, com Dry Martini invertido.

Ferrero Rocher - parece, mas não é.

Cenoura do Algarve em conserva
Rissol de camarão
Frango assado
No geral, mini entradas muito interessantes e bem conseguidas, com destaque especial para o delicioso rissol de camarão e para o meu preferido - frango assado. A trilogia de azeitona e o Ferrero Rocher continuam a apetecer, mas acho que já chegou a altura de variar. Bem sei que há pratos que nunca se mudam, mas já dispensava estes dois se me fossem apresentadas novas alternativas.
Para além das mini entradas, foi ainda servida uma trilogia de manteigas (dos Açores, fumada e manteiga de noz).
Passando ao menu, de entrada foi-me servida a "Rebentação (bivalves, gamba da costa, "água do mar" e "areia" de algas - 2012)" que continua a ser um dos melhores pratos que já comi. Os olhos contam muito, e a apresentação desta "Rebentação" é maravilhosa. Mas o sabor supera o efeito visual, com uma explosão de texturas e sabores e, essencialmente, com o poder de nos transportar para a praia e para o mar. Perfeito.
À minha mulher foi servido o "Cozido à Portuguesa" e, consequentemente, a primeira desilusão da noite. Tudo bem que ninguém estava à espera de uma travessa à pinha e ao estilo enfarta brutos, mas três legumes sem grande piada, acompanhados por um naco de gordura, a nadar num caldo (morno) da sopa do cozido, é dececionante... Por mais saboroso que fosse o caldo, que conseguia trazer todas as lembranças do cozido à portuguesa, faltava algo para elevar este prato. No fim de contas, o que todos queremos é comer pratos que sejam tão bons, que ficamos com vontade de voltar a pedi-los. E este "Cozido à Portuguesa" não deixou vontade de repetir.
Seguiu-se, no meu caso, O "Cozido à Portuguesa de carabineiro do Algarve (2014)" que, em jeito de resumo, é o caldo do cozido (bom e saboroso) com alguns elementos do cozido e o extra do carabineiro. Ora por mais que me custe escrever isto, tratou-se de mais um prato que, para mim, não resultou. E porquê? Porque o carabineiro foi aniquilado pelo sabor forte do caldo. E transformar um carabineiro num mero ingrediente que está no prato e dá alguma textura mas não sabe a nada, é lamentável.
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