Hoje é Black Friday, dia em que não há uma única loja que não anuncie descontos ultra mega espetaculares e cortes brutais nos preços (mesmo que os preços tenham subido dois dias antes para que agora pareça tudo incrível). Mas não é só nas lojas que há cortes. Se olharmos à nossa volta, verifica-se que cada vez há mais cortes... na educação. Cortes nos valores, mas não dos preços. Cortes nos princípios, naquilo que é mais básico. Deixo dois exemplos testemunhados por mim esta semana em Lisboa.
1 - Ao passar por um autocarro parado numa paragem ouvi um homem a gritar. Abrandei o passo e olhei para o interior. Pensei que eram passageiros a discutir, mas para minha surpresa era o condutor do autocarro que gritava. E com quem? Com um casal de idosos. E porquê? Porque, nas palavras do condutor, estavam a demorar demasiado tempo para saírem do autocarro, estavam a atrapalhar o trânsito e ele estava atrasado na sua ronda. Como se isto já não fosse suficiente, vejo ainda que o casal não só era bastante idoso, como o senhor tinha enormes dificuldades de locomoção, recorrendo a um andarilho para tentar andar.
Agora imaginem este cenário:
- o condutor gritava,
- a senhora, nervosa, tentava auxiliar o marido,
- e o senhor tremia por todos os lados com o seu andarilho, enquanto murmurava qualquer coisa que parecia um pedido de desculpa.
Felizmente um dos passageiros veio ajudar o casal a descer e logo a seguir ouvi-o gritar com o condutor.
2 - Numa conservatória em Lisboa, com mais de 100 pessoas de pé e poucas cadeiras disponíveis (todas ocupadas), um homem, sem qualquer dificuldade de locomoção aparente, levantou-se e dirigiu-se para um balcão. Uma senhora, mais velha do que ele, aproveitou esse facto e sentou-se. Dois segundos depois regressa o homem (tinha-se enganado e pensado que era a sua vez) e diz:
- Saia daí que esse lugar é meu! Saia! Xô!
A senhora levantou-se, mas houve imediatamente quem lhe deu um lugar. O homem ignorou tudo o que lhe chamaram em seguida (desde racista, ele era branco e ela negra, a mal educado) e permaneceu sentado tranquilamente a ler o seu jornal.
Nesta Black Friday, em que todos só pensam em consumismo e descontos, se calhar devíamos pensar nos outros tipos de descontos, nomeadamente na educação e valores...
