Há muito tempo que o restaurante Ferrugem estava no topo da minha lista de restaurantes a visitar. A enorme e surpreendente criatividade do casal Renato e Dalila Cunha chamou-me a atenção e a visita só teve de ser adiada por causa da distância Lisboa - Vila Nova de Famalicão.
No entanto, e aproveitando umas mini férias no Porto, decidimos, finalmente, cumprir o desejo de ir ao Ferrugem. As expectativas não podiam ser maiores, o que é sempre um “perigo”. Conclusão? O restaurante Ferrugem conseguiu superar todas as minhas melhores expectativas e alcançar o topo da minha lista de restaurantes favoritos.
Começando pela localização, o restaurante Ferrugem não fica em Vila Nova de Famalicão. Bem sei que o erro foi meu de pensar que o restaurante ficava na cidade, mas não. O restaurante fica em Portela, a alguns quilómetros de Vila Nova de Famalicão. E se querem um conselho, utilizem o vosso GPS e confiem nele. É que a localização não é a melhor e o restaurante não é o mais fácil de encontrar.
Mas certo é que o restaurante é muito bonito. Tanto por fora, como por dentro. Rústico, agradável, confortável e tranquilo. Por “falar” em tranquilo, fomos os únicos clientes durante toda a refeição, o que me fez ficar a pensar na “loucura” de um casal de Chefs com um restaurante de altíssima qualidade/criação numa localização menos privilegiada. Mas ainda bem que há gente assim com tanta coragem.
Antes de passar aos pratos, destaque especial para o serviço, que, como poderão verificar mais abaixo na pontuação, obteve 10 em 10. Apesar de ter hesitado, por não querer dar nota perfeita quando posso encontrar um serviço ainda melhor, a verdade é que se um serviço é perfeito, a nota tem de ser perfeita. E o serviço do Ferrugem foi mesmo perfeito.
Desde a excelente receção, à compreensão com o nosso bebé de poucos meses, à maneira de servir, ao cuidado e atenção com tudo, à ajuda no que escolher, à descrição dos pratos, à simpatia… Tudo foi perfeito. Daí o 10. Nada poderia ter sido melhor. Aqui ficam os nossos parabéns e agradecimentos por tudo ao Sr. Abílio Silva.
Ao contrário do que tem sido habitual ultimamente, o Chef Renato Cunha foi à sala falar connosco, foi de uma simpatia extrema e ainda esclareceu uma dúvida que tinha, o que ajudou ainda mais a gostar tanto da refeição e restaurante.
Passando então aos pratos, seguimos o conselho do empregado e ficámos na mão do Chef com um menu de degustação “às escuras” de quatro pratos.
Como couvert foi servida uma “Manteiga de azeite”, em tributo à pasta medicinal Couto, que é uma emulsão de azeite para barrar o pão.
A manteiga é intensa e deliciosa, mas o ponto alto é a apresentação, com uma embalagem e tubo pensados ao pormenor. E quando existe uma conjugação entre uma apresentação inteligente e um sabor delicioso, nada mais há a desejar.
Como pré-entrada, oferta do Chef, foi servido um caldo verde com azeite de Trás-os-Montes e broa de milho pincelada com azeite e torrada no forno. A ferver, servido numa taça para levar à boca, esta versão do caldo verde não conseguiu convencer totalmente devido ao (demasiado) intenso sabor a chouriço que se fazia sentir. De certeza que este sabor deve ser apreciado por muitos, mas para o nosso paladar mostrou-se um pouco agressivo. Tirando isso, a broa estava muito boa e o caldo verde era interessante.
Para entrada, e primeiro prato do menu, o Chef escolheu um “Bacalhau com todos” que nos deixou verdadeiramente rendidos. Carpaccio de bacalhau, ovo a baixa temperatura, duas variedades de pickle de cebola - em açafrão e beterraba - emulsão de azeite e pasta de azeitona. Leve, fresco e lindo. Apresentação impecável (com uma escolha acertada no tipo de prato) e resultado final excelente.
Para prato de peixe, o Chef escolheu uma “Caldeirada”, com esmagada de batata e calda de caldeirada. Nada a apontar, com todos os sabores de uma caldeirada tradicional e um peixe no ponto.
Para limpar o palato, foi apresentado um sorbet de limão com licor de amêndoa amarga. Como não gosto de amêndoa amarga, não apreciei muito esta escolha, mas a minha querida mulher, na qualidade de apreciadora, gostou bastante.
Antes da sobremesa, e como prato de carne, foi servida uma carne de boi maturada (por 30 dias) com puré de cenoura e “feijoada”. Tenho de confessar que não considerei a melhor combinação com a “feijoada” e puré, mas a carne era tão boa, que tudo o resto foi “perdoado”. Maturada pelo Chef por 30 dias (tal como explicado pelo próprio), a carne, mal passada, tinha um sabor e textura incríveis. O Chef ainda contou que tem o cuidado de escolher sempre carne da região, tendo, na altura, um bocado com 50kg a maturar.
Para sobremesa, o Chef, contrariamente ao que seria de esperar (ou talvez não, porque, afinal, o serviço e atenção não podia ter sido melhor) escolheu uma sobremesa para cada um de nós. E, curiosamente, parecia que conhecia bem os nossos gostos.
Para mim foi escolhida uma pêra bêbada sobre tarte de queijo que estava de comer e chorar por mais. Sem um único ponto negativo a apontar.
Para a minha mulher foi escolhido um pudim abade de priscos em mousse, com um toque de caramelo de aguardente vínica com laranja, servido em copo de gelo para evitar que a mousse aqueça.
O copo de gelo era magnífico e, segundo a minha mulher, a mousse era deliciosa. No entanto, para mim, o sabor a toucinho era demasiado intenso. E, infelizmente, ficou a faltar o coração de Viana que o Chef costuma fazer.
Para terminar em beleza, café com pastel de nata, com massa estaladiça e recheio cremoso.
Por fim, o preço. €33,00 por pessoa para o menu escolhido e descrito. Dificilmente era possível melhor relação qualidade/preço. Só entre nós, só fica a faltar uma coisa. Uma estrela Michelin. Tal como escrevi aqui, em relação ao Esporão, se é preciso telefonar a convidar os jurados para conhecer o restaurante, então não esperem mais para telefonar. É que a estrela é totalmente merecida. Mais do que outros restaurantes estrelados.
E com esta me fico, com a certeza de que, se puder, regressarei muitas vezes ao Ferrugem, pois o restaurante é merecedor de todos os desvios.
Pontuação de 0 a 10
Cozinha (50%) - 9,5
Serviço (25%) - 10
Ambiente (25%) - 9
Pontuação final - 9,5
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