Filipe Consciência

"Liberdade" de expressão - Restaurantes

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Podemos falar bem sobre tudo, desde que seja sobre coisas de que a maioria gosta.


Não podemos falar mal sobre nada, a não ser que seja sobre coisas de que a maioria não gosta.


 


Estas duas máximas são, infelizmente, aplicadas em quase tudo no nosso quotidiano, mas hoje vou focar-me apenas nas críticas a restaurantes feitas na internet.


 


Se for feita uma crítica positiva a um restaurante da moda, ou a um restaurante que tem sido, ultimamente, elogiado por muitos, não há qualquer problema. Chovem comentários a concordar (alguns escritos por pessoas que nunca entraram no restaurante, nem sequer cheiraram a comida lá servida) e tudo está bem.


 


Se se criticar um restaurante ou Chef que está na mó de baixo, nem que seja por causa de uma crítica de algum pseudo famoso, também não há qualquer problema. A crítica vem no seguimento da outra e bate certo. Tudo ok.


 


No entanto, se se decidir criticar um restaurante adorado por muitos, ou elogiar um restaurante mau, alto e para o baile! As críticas e elogios são considerados ocos, os autores acusados de não perceber nada do assunto e de querer ser do contra. Afinal, como é que se pode criticar um arroz de pato do restaurante x, quando os blogs y e z disseram que aquele arroz de pato era o melhor do mundo, melhor até do que o feito pelas suas queridas mãezinhas? Ou, versão inversa, como é que posso elogiar um arroz de pato que está pelas ruas da amargura no que respeita às críticas a restaurantes?


 


Pegando num caso em concreto - o restaurante Leopold, em Lisboa. O percurso profissional do Chef, e a propaganda de cozinha sem lume, foi o suficiente para lançá-lo. Muitos foram os sites e blogs que começaram a escrever sobre o restaurante e muitos foram os que ficaram curiosos e decidiram ir (como nós).


 


No geral, as críticas foram extremamente positivas. "A melhor experiência da nossa vida", "o restaurante revelação de 2014" ou "o que estava a faltar em Lisboa".


 


No entanto, e por mais que eu quisesse pensar o contrário, o Leopold foi, para nós, a desilusão de 2014. As extensas justificações já foram escritas aqui mas, no fundo, o restaurante não correspondeu em nada às expectativas criadas. 


 


Apesar das diversas razões que nos levaram a não gostar do restaurante como gostaríamos, a crítica foi mal recebida, com comentários negativos, tanto no blogue como no facebook. Até, curiosamente, de pessoas que nunca foram ao restaurante! E é extraordinário como se pode criticar uma opinião negativa sobre um restaurante que nunca se visitou, apenas porque... Não sei, não faço a mínima ideia porque é que não concordam com críticas sobre restaurantes que nunca visitaram...


 


Por acaso, descobri que no Público tinha saído em Dezembro uma crítica igualmente negativa ao restaurante. E o que é que aconteceu? A análise e autor foram arrasados por comentários, em todos os aspetos. E porquê? Porque, no fundo, o autor limitou-se a opinar sobre o restaurante, dizendo o contrário do que têm dito. É verdade que o seu "tom" pode não ter sido o mais correto, mas a questão essencial prende-se com o facto de ele ter criticado o "restaurante sensação de 2014".


 


Afinal, onde é que está a liberdade de expressão? Só funciona para um lado? Nós adoramos o Cantinho do Avillez, mas não nos pomos a comentar exaltados todas as críticas negativas, ofendendo os autores das mesmas. Se uma pessoa não concorda com o que lê, deve poder expressar a sua discordância, mas com respeito, pois nada mais está a fazer do que o autor da crítica previamente fez.


 


E eu acho excelente que a maioria tenha adorado o Leopold e queira lá voltar. Fico feliz pelos responsáveis dos restaurantes e pelos clientes. Mas não me podem obrigar a sentir o mesmo que a maioria, ou a mentir para que todos fiquem contentes. Não sou assim, e nem o Só entre nós vai alguma vez ser assim.


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