
Como normal, eu tenho alguns lugares preferidos no comboio e, se possível, vou sempre no mesmo lugar. Porém, se, por algum acaso, já for alguém sentado no lugar que habitualmente escolho, opto por outro lugar disponível. Óbvio, não é?
Não. Para algumas pessoas, os lugares só não têm o seu nome gravado no assento porque não dá. Tal como acontece com um casal, com cerca de cinquenta anos, que, todos os dias, entra na última porta do comboio no Oriente, tal como eu.
Assim que o comboio começa a entrar na estação, o casal coloca-se estrategicamente em frente ao local onde já sabem que a porta vai ficar e, assim que esta abre, não deixam que ninguém saia primeiro e entram a correr na carruagem para se poderem sentar nos dois lugares que tanto gostam.
E não, o comboio não vai cheio quando chega ao Oriente. Pelo contrário. Àquela hora vai praticamente vazio, com um rácio de uma pessoa por cada oito lugares. Por isso, eles nunca correm o risco de ir de pé, mas como podem perder os seus dois lugares, não hesitam em empurrar (sim, não estou a exagerar) quem estiver à sua frente para garantir aqueles lugares.
Empurram e utilizam um dos membros do casal para atrapalhar quem quer entrar, enquanto o outro assegura que os lugares são deles. Superstição? Talvez. Parvoíce? Certamente.
Que eu tenha visto, só por uma vez é que, ao entrarem, viram que estava uma pessoa sentada nos lugares deles - o revisor do comboio. E o que eu me ri com a cara de espanto deles. Mas acham que eles escolheram outros lugares? Nada disso. O homem foi dizer ao revisor tinha visto uns rapazes com um ar estranho a entrar para o comboio e perguntou se ele não ia circular pelo comboio para controlar os bilhetes. Confrontado com aquela suspeita, o revisor levantou-se e eles sorriram de vitória ao sentar-se nos seus lugares de estimação.
Já cheguei a pensar correr para me sentar no lugar deles, mas não vou descer ao mesmo nível. É melhor deixá-los com a sua parvoíce, se julgam que são mais felizes assim.
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