Filipe Consciência

Mundial nos EUA


 


Todos sabemos como o desporto rei não faz muito sucesso pelas terras do Tio Sam. Diversas são as séries, e filmes, americanos que chegam a gozar com um desporto a que, constantemente, apelidam de entediante. Nunca percebi muito bem o porquê desta embirrância nacional com o desporto mais conhecido do mundo, mas imagino que seja porque não é um desporto tradicional americano.



Seja como for, 2014 é o ano da mudança nos EUA. E porquê? Porque nunca houve tantos americanos interessados em futebol. O Mundial de 2014 transformou-se no assunto da ordem do dia, os jogos transmitidos na televisão e internet bateram todos os recordes de audiência, chegando até a superar as médias das últimas finais da NBA e MLB (liga de basebol) e multidões encheram os locais com ecrãs gigantes para ver o tal desporto entediante. Para além disto, houve ainda uma verdadeira invasão de americanos no Brasil para assistir aos jogos, provavelmente devido à proximidade de países.


 


Tamanha reviravolta no interesse dos americanos pelo futebol tem, curiosamente, causado algum desconforto. Tal como relata o Público, a comentadora e colunista Ann Coulter escreveu recentemente numa crónica sua que o futebol é um "desporto estrangeiro" e que o interesse que estava a despertar no país só poderia indiciar “um sinal da decadência moral da nação”, associando o sucesso do futebol às alterações demográficas no país, com o crescimento das populações de origem hispânica.


 


“Garanto: nenhum americano cujo bisavô tenha nascido aqui está a ver futebol. Tenho a esperança de que, com o tempo, estes novos americanos, além de aprenderem inglês, percam o ‘fetiche’ pelo futebol”, concluiu, demonstrando total estupefacção pelo interesse num desporto que apelidou de “totalmente entediante”: “Se Michael Jackson tivesse tratado as suas crónicas insónias com um vídeo de um Argentina-Brasil em vez de Propofol [um sedativo usado pela antiga estrela pop, considerado responsável pela sua morte], ainda estaria vivo, apesar de aborrecido.” Opiniões qualificadas de “racistas” e intolerantes por alguns colunistas do jornal New York Times e das revistas Times Forbes nos dias seguintes. - sic. Público.


 


É claro que se tratam de comentários feitos por uma comentadora e colunista sobejamente conhecida pelas suas opiniões controversas. Porém, de certeza que não é a única a pensar assim nos EUA, representando uma faixa mais conservadora do país. E é tão triste ler alguém a escrever publicamente que o interesse pelo futebol só tem aumentado graças ao crescimento das populações hispânicas, ou que um verdadeiro americano (será que existem?) nunca verá futebol.


 


Porquê? Qual é o mal? Têm de perder o fetiche pelo futebol? Ver um jogo de futebol é melhor do que tomar Propofol? A sério? É possível tamanha estupidez junta? Infelizmente sim, e Ann Coulter é exemplo disso.


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