De vez em quando ando de comboio, e são raras as vezes em que não tenho alguma história para contar. Recentemente, o revisor aproximou-se de um adolescente, com não mais de 16 anos, e pediu-lhe o bilhete.
"Não tenho.", respondeu o adolescente,
"Como?"
"Não tenho.", reafirmou, encolhendo os ombros, sem demonstrar qualquer sentimento de receio ou vergonha.
A sua atitude era de alguém nada preocupado com o que se estava a passar. De tal forma que o adolescente poderia ter saído na estação anterior, porque já tinha visto o revisor na carruagem a pedir os bilhetes, mas decidiu ficar. Não tinha bilhete, e isso não era um problema dele.
Naquele instante, convenci-me que o revisor ia passar-lhe uma multa. Afinal, existe cada vez menos tolerância, e já vi mais do que uma pessoa a ser multada somente porque não validou o seu bilhete (que tinha dinheiro para várias viagens).
Para minha grande surpresa, o revisor limitou-se a dizer:
"Está bem, mas então tens de sair na próxima."
E o que é que aconteceu a seguir? Sim, ele não saiu. Só quatro estações depois é que saiu. Nesse entretanto, esteve tranquilamente a olhar para a janela, ao mesmo tempo que o revisor, de pé ao lado dele, ia jogando no telemóvel.
Ou seja, o revisor não só não passou multa, como disse para ele se ir embora e ele só saiu na estação que queria.
Falta ainda referir que o adolescente tinha "bom aspeto", não representando o seu aspeto físico, e o medo do que poderia acontecer, qualquer justificação para a atitude do revisor.
No fim, nem o rapaz quis comprar um bilhete, andando de comboio sem qualquer preocupação, nem o revisor quis exigir nada ao rapaz.
E porque é que isto me chateia? Por eu, e a larga maioria dos passageiros, tem de pagar os bilhetes, tem o cuidado de validá-los e, se não o fizer um dia por engano, leva logo com uma multa, independentemente da justificação. É triste, não é?