
Apesar de já ter aqui escrito sobre o luto que fiz nos dias que se seguiram à morte de Mário Soares, não podia deixar de manifestar a minha tristeza e revolta pelo destilar de ódio nas redes sociais e blogs contra Mário Soares.
Ninguém poderá afirmar que Mário Soares era perfeito. Mas quem é que é perfeito? Todos somos seres humanos e, como tal, erramos. E Mário Soares, ao longo da sua longa vida, errou. Se não o tivesse feito era um santo, e duvido que alguém ande a ponderar pedir a sua canonização.
Porém, e se é certo que Mário Soares errou, também é certo que não há necessidade de olhar unicamente para os erros e esquecer o que ele fez por todos nós.
Não sei se disse para atirar alguém aos tubarões. Não sei se pisou a bandeira de Portugal. Não sei se ofendeu algum clube de futebol e seus adeptos. Não sei se lidou assim tão mal com a descolonização como alguns afirmam. É provável que seja tudo verdade.
Mas sei com certeza que quem festeja agora a sua morte já errou, ofendeu alguém e, de certa forma, já criticou / ofendeu / prejudicou a pátria.
E sei também que a maioria pouco fez pela História do país, pela garantia da liberdade, pela luta contra um regime opressor e ditador.
Mário Soares nasceu numa família com posses. Podia ter ficado no seu canto, ver a vida passar sem grandes chatices. Podia ficar à espera que alguém fizesse aquilo que ele não tinha coragem. Podia esperar que o regime caísse, que houvesse um milagre, que alguém se mexesse.
Não tinha necessidade de ter coragem ou ser louco para ir a eleições num regime ditatorial, de ser perseguido, torturado e preso. Não tinha necessidade de fugir do país, regressar anos mais tarde e passar a sua vida a lutar por um país livre e melhor.
É esse Mário Soares que devemos recordar e é essa a vida que deve ser enaltecida.
Mário Soares não foi perfeito, mas lutou pelo nosso país como nós não fizemos e provavelmente nunca iríamos fazer.
E é por isso que eu digo, e reitero, mesmo que ninguém concorde,
Obrigado Mário Soares!