Miguel Araújo é um dos melhores músicos portugueses da atualidade. Cantor, compositor e inspirador, ficou conhecido através dos Azeitonas, e em 2012 lançou o seu primeiro álbum a solo, "Cinco dias e meio", que passou a fazer parte de quase todos os tops musicais em Portugal. Especialmente, graças ao sucesso de "Os maridos das outras".
Para além de "Cinco dias e meio", Miguel Araújo foi colaborando e compondo para diversos artistas como João Só, António Zambujo, Ana Moura, Deolinda e Luísa Sobral
Em 2014 saiu o seu segundo álbum, "Crónicas da cidade grande" com mais músicas maravilhosas como "Dona Laura", "Balada astral" (em parceria com Inês Viterbo) e a magnífica "Recantiga", a que faço hoje destaque.
Música linda, letra linda, voz sem defeitos... Não se podia pedir mais.
Era as folhas espalhadas, muito recalcadas do correr do ano
A recolherem uma a uma por entre a caruma de volta ao ramo
Era à noite a trovoada que encheu na enxurrada aquela poça morta
De repente, em ricochete, a refazer-se em sete nuvens gota a gota
Era de repente o rio, num só rodopio a subir o monte
A correr contra a corrente assim de trás para a frente a voltar à fonte
Um monte de cartas espalhadas des-desmoronando-se todo em castelo
Era a linha duma vida sendo recolhida de volta ao novelo
Era aquelas coisas tontas, as afrontas que eu digo e que me arrependo
A voltarem para mim como se assim tivessem remendo
E era eu, um passarinho caído no ninho à espera do fim
E eras tu, até que enfim, a voltar para mim.
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