Filipe Consciência

Reservas invisíveis


 


Conseguir uma mesa num café, ou zona de restauração, em verdadeira hora de ponta, para uma equipa de futsal, ou mesmo apenas para duas pessoas, é algo extraordinariamente difícil. Tão difícil como garantir espreguiçadeiras, umas ao lado das outras, junto a uma piscina num dia de sol.


 


Porém, para combater essa dificuldade, capaz de fazer correr os coxos, com o objetivo de chegar a uma mesa antes dos outros, foi criada a figura da reserva invisível. E em que é que consiste a reserva invisível?


 


Simples. Em primeiro lugar, escolher um dos elementos do grupo para ser o reservador. Na maioria das vezes, opta-se por escolher o mais fraco. O que é igual a dizer: aquele que se contenta com qualquer coisa que os outros escolham para ele comer; aquele com quem menos apetece falar; aquele que tem maior dificuldade locomotiva; aquele mártir que se oferece sempre para tudo; ou, na falta disto tudo, aquele que tem uma cara mais ameaçadora. Músculos também contam para esta escolha. Já a beleza não. É que quanto mais bonito for o reservador, mais pessoas vai acabar por atrair para o pé de si, e isso é tudo o que não se quer numa reserva invisível.


 


Em segundo lugar, deixar o mártir, ou reservador, sentadinho numa cadeira de uma mesa vazia, a guardar os outros dezasseis lugares vazios da mesa, enquanto o restante grupo vai, calmamente, percorrendo o menu e escolhendo a comida que querem. Com toda a calma, porque não há razões para correr (há um reservador, está tudo ok).


 


Enquanto o grupo vai escolhendo, falando entre si e esperando pela comida, o reservador vai cumprindo a missão para a qual foi escolhido. Guardar os outros dezasseis lugares vazios e ir impedindo que qualquer outra pessoa se sente nesses lugares.


 


"Está ocupado." São estas as únicas palavras que, normalmente, se ouve sair da sua boca. Repetidas incessantemente, porque o grupo demora quarenta minutos até aparecer (com sorte), mas ditas com firmeza, perante a pergunta sem sentido de quem se aproxima das mesas vazias. Que lógica é que tem chegar a uma mesa de seis lugares, com apenas uma pessoa sentada, e perguntar se a mesa está ocupada? Eu faço isso. É uma questão de boa educação. Mas contra mim escrevo. Que sentido é que isso faz? A mesa está vazia. Quer dizer, está lá um reservador, e, no seu entendimento, os outros cinco lugares estão invisivelmente reservados. Mas a verdade é que os outros cinco lugares estão vazios. E perante as palavras "Está ocupado.", dever-se-ia perguntar "Por quem?" e sentar-se imediatamente.


 


Não há cá lugar para reservas invisíveis quando não há mais lugares onde sentar. Qualquer pessoa que já tenha comida na mão, tem preferência sobre qualquer outra pessoa sem comida, que esteja simplesmente a guardar os outros lugares para colegas.


 


Ainda por cima, enquanto o reservador espera que os outros cheguem, normalmente há tempo suficiente para outros comerem naqueles lugares invisivelmente guardados, ainda antes de serem ocupados pelos reservantes invisíveis.


 


Pior do que tudo isto, é reservar uma mesa de dois lugares durante largos minutos numa zona de restauração de um centro comercial verdadeiramente apinhada, para, no fim, quando chega a sua colega que esteve, calmamente, a passear pelos restaurantes a tentar decidir o que comer, abrir a mala e retirar de lá um tupperware com comida de casa. Não só esteve a ocupar uma mesa de dois lugares durante muitos minutos, como ainda por cima não ia consumir nada comprado naquele centro.


 


Por fim, destaque especial para o outro tipo de reservas invisíveis. E estas são especialmente invisíveis - quando não há qualquer reservador físico, mas sim uma toalha, ou livro. Caso das espreguiçadeiras junto a uma piscina num dia de sol. Nada como estar num hotel, ou navio de cruzeiro, acordar especialmente cedo, reservar uma ou mais espreguiçadeiras junto à piscina com um livro, um lenço, ou uma toalha, e voltar para a cama para dormir. Ou, então, ir calmamente tomar o pequeno-almoço. Tudo enquanto as outras pessoas, que querem mesmo utilizar as espreguiçadeiras, não têm uma única vazia.


 


Só entre nós, dava vontade de pegar nos livros e toalhas e atirá-las para dentro de água, não dava?


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