Uma nova passagem por Barcelona merecia uma segunda visita ao restaurante Roca Moo, com uma estrela Michelin, do Chef Joan Roca, um dos melhores do mundo. Mesmo que a última visita tivesse sido poucos meses antes (análise aqui).
A refeição, da primeira vez, foi tão genial e maravilhosa, que mal seria se não aproveitasse a ida a Barcelona para regressar onde tinha sido tão feliz. E, sem grandes surpresas, voltei a sair de lá com a convicção de que tinha estado no melhor restaurante onde alguma vez estive. Até pode não estar tão bem classificado nos rankings mundiais como o Vila Joya (análise aqui), nem ter as três estrelas do Azurmendi (aqui). Mas a comida apresentada é divinal, fazendo com que a experiência final no Roca Moo seja ainda melhor.
Não me vou alongar muito sobre o restaurante, ou Chef. Sobre isso, podem ler aqui na minha outra análise. Acrescento apenas que o Chef e ajudantes (na cozinha à vista de todos) mantiveram uma serenidade desconcertante, e os empregados voltaram a demostrar uma enorme simpatia e profissionalismo, com o pormenor de no fim se terem despedido e agradecido em português. Pequenos detalhes que só contribuem para uma experiência mais inesquecível.
Quanto à comida, voltámos a optar pelo menu de almoço - €45 por pessoa, com água, copo de vinho, surpresas do Chef, uma entrada, dois pratos, sobremesa e café. Valor mais que justo para a qualidade e quantidade servida.
O serviço começou com as surpresas do Chef que, devido à proximidade entre visitas, foram as mesmas da outra vez. E se num primeiro instante fiquei desiludido, imediatamente esqueci a repetição ao lembrar-me dos sabores de cada um.
Os bolinhos mexicanos eram cremosos e perfeitos; os camarões do rio num pequeno tronco eram tão bonitos, que antes de comer fiquei a olhar demoradamente para o aperitivo; a versão do melão e presunto era crocante e suave; e o explosivo e fresco Mojito era a cereja em cima do bolo para aquele quarteto de aperitivos.
A seguir, e para minha grande felicidade, veio a espuma de bacalhau e respetiva pele frita. Dizer que este prato é genial é muito pouco. Tal como escrevi aqui, a frescura da espuma leva-nos ao mar onde o bacalhau é capturado, a surpresa do bacalhau no fundo desfaz-se na boca, e a pele frita é ridiculamente boa.
Felizmente já consegui atingir o Nirvana com alguns pratos (como dizem no Cañota Casa de Tapas) ou, como defendem outros, um orgasmo gastronómico. E este prato tem esse efeito sobre mim. Tal como a Rebentação - bivalves, gamba da costa, "água do mar" e "areia" de algas, servida no Belcanto (aqui). Joan Roca, se estiveres a ler, será que podias partilhar a receita comigo? Fica só entre nós!
Ultrapassado o clímax, foram servidos os mesmos quatro tipos de pão (de vinho tinto, cebola e queijo, fumado e caseiro). Como da outra vez optei pelo de vinho tinto (interessante, com aroma e travo a vinho) e cebola e queijo (muito bom), desta vez escolhi o caseiro. Decisão mais do que acertada, a fazer lembrar o nosso pão alentejano.
Findas as surpresas do Chef (ohhh), chegou a entrada - Carpaccio de lavagante com avelãs e cítricos. Depois de alguns momentos a olhar para o prato e suas dezenas de diferentes elementos, chegou a hora de provar. O lavagante, cheio de sabor, explodia na boca à medida que se comia cada um dos pequenos elementos do prato - estrela de manjericão, avelãs, micro ervas, cubos de laranja e outros cítricos, pistáchios, tomates e diversas esferificações. Era como se cada garfada fosse diferente, cada uma melhor do que a outra. Este é daqueles pratos que, infelizmente, é comido em poucos minutos, mas que permite que se sintam as longas horas de trabalho por trás. Perfeito.
Em seguida veio um Velouté de moluscos e crustáceos com ar de açafrão. Mar, mar, mar. Era só nisso que dava para pensar, com o sabor e frescura dos moluscos e crustáceos a fazer despertar os sentidos. Muito bom, apesar do sabor do velouté pecar por não ter um sabor mais diferente - não passava de um simples caldo, e o ar de açafrão pouco acrescentou.
A outra entrada - Arroz de codorniz e cogumelos - estava deliciosa. Conta quem comeu que a carne estava no ponto e muito saborosa, tal como o arroz. Não seria de esperar outra coisa.
Passando aos pratos, voltei a escolher a carne e não me arrependi, mas também provei o prato de peixe - Robalo com acelgas, pimentos e chili - e posso confirmar que estava maravilhoso. É extraordinário como a confeção de um peixe de forma menos "tradicional", e com um ponto de cozedura diferente daquele a que nos fomos habituando a comer em casa e nos restaurantes, pode transformá-lo da noite para o dia. Se o robalo estava perfeito, com a pele bem tostada, os acompanhamentos, apesar de bons, podiam ser melhores - como o puré de batata violeta que acompanhou a pescada da outra vez.
Tal como escrevi, escolhi a carne e, dificilmente, podia ter escolhido melhor - Cordeiro, rúcula e carbonara de trombetas da morte. O cordeiro estava sumptuoso. Desfazia-se na boca, o sabor era de chorar, e a pele... Estaladiça e crocante. Digamos que estava obscenamente delicioso. Os cogumelos, apesar do nome, não matam ninguém e são muito bons. Já o creme e cilindros de esparregado eram um acompanhamento mais do que adequado. Resumindo, estava perfeito.
Por fim, veio a sobremesa - Chufa, café e limão - que, para nosso agrado, trouxe uma das tradições gastronómicas em Barcelona - Orxata - tanto em copo, como na própria sobremesa. A acompanhar a orxata havia um gelado de café e esferificações de limão. No geral era uma sobremesa muito boa mas que, em comparação com a servida uns meses antes, deixou um pouco a desejar.
Aproveitando o facto de estar num restaurante onde as sobremesas são criadas por Jordi Roca, eleito o melhor Chef Pasteleiro do mundo, não resisti a pedir uma sobremesa extra. E se da outra vez escolhi a Viagem a Havana (com verdadeiras cinzas de charuto, leiam mais aqui), desta vez escolhi a Nuvem.
E que maravilha de sobremesa... Não só é extremamente bonita, como é deliciosa. E em que é que consiste? Num gelado de leite de ovelha, espuma de leite de ovelha, gelado de goiaba e algodão doce por cima. O algodão doce derrete na boca, trazendo memórias de infância, ao mesmo tempo que se vai derretendo e misturando com os gelados de leite e goiaba... É bom demais.
Sobremesa perfeita para mais uma refeição (praticamente) perfeita, no meu restaurante preferido. Venha a décima primeira viagem a Barcelona.
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