Há uns dias no comboio estava um homem com roupas rasgadas, os braços repletos de tatuagens, piercings espalhados pela cara e rastas. Ao seu lado, estava um lindo bebé de poucos meses, deitado no seu carrinho, loirinho e de olhos azuis, que atraía a atenção de todos os presentes.
Por duas vezes, aquele homem, pai do bebé perfeito, precisou de ajuda. Para subir os degraus do comboio com o carrinho e para sair da carruagem. A mãe do bebé, estrangeira, também estava com ele, e também tinha o mesmo aspeto que o companheiro, mas não podia ajudar porque levava duas enormes mochilas.
Das duas vezes que pediu ajuda, não faltaram pessoas disponíveis para o ajudar. E, em ambas as ocasiões, o homem demonstrou extrema educação, contrariando todos os estereótipos criados nas cabeças dos outros por causa do seu aspeto.
Agora pergunto: se não houvesse nenhum bebé, e fosse somente aquele homem simpático e educado, mas com aquele mau aspeto (aos olhos da maioria), será que ele conseguiria ajuda de alguém para subir as escadas e sair da carruagem?
Imaginemos que ele tinha dificuldade em andar, como tantos idosos que andam de comboio, e não conseguia sair do comboio sem ajuda de outro. Será que, se pedisse ajuda, sem qualquer bebé, conseguiria a mesma simpatia?
A minha resposta é negativa. Não sou hipócrita, nem vou dizer que claro que ajudava. Honestamente, não sei, mas o seu aspeto descuidado não me inspiraria muita confiança. E para quem, como eu, já foi assaltado mais do que uma vez, e já assistiu a um assalto no comboio, não é de admirar a desconfiança. Por isso, o mais certo era ficar à espera que outra alma mais caridosa se dispusesse a ajudar.
Perante tamanha simpatia, o homem virou-se para a companheira e disse, em inglês, que os portugueses eram todos assim. Extremamente simpáticos... Pois, pois... Até podemos ser todos muito simpáticos, mas continuo a acreditar que, se não houvesse bebé, não haveria tanta gente disposta a ajudá-lo a sair do comboio. Se é que haveria alguém...
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