Filipe Consciência

Telefonema do outro mundo


 


Recentemente telefonei para uma empresa, por causa de uma dúvida com uma fatura, e expliquei à senhora que atendeu o motivo do meu telefonema. O que se seguiu, e que agora transcrevo, é verídico, apesar de parecer impossível.


 


"Já lhe disse que ia tratar do seu assunto, não precisava de ligar novamente.", disse a senhora, com uma voz zangada, assim que acabei de explicar a minha dúvida.


"Como?"


"O senhor não me pode estar a pressionar. Se eu disse que tratava, é porque vou tratar."


"Desculpe, mas a senhora está a falar comigo, ou com alguém ao seu lado?", perguntei, confuso, uma vez que nunca tinha falado com aquela senhora, ou com qualquer outra pessoa da empresa.


"É consigo!", exclamou. "Ligou-me há minutos e agora está a ligar novamente."


"Eu? Liguei?"


"Sim! Telefonou para aqui e agora está a insistir."


"Garanto-lhe que não telefonei para aí!"


"Ai telefonou, telefonou! E ainda está a mudar a voz para parecer outra pessoa."


"Oh minha senhora, se eu estou a dizer que não telefonei, é porque não telefonei! Nem hoje, nem nunca. Eu nunca telefonei para a vossa empresa!"


"Então vamos ver. Diga-me o seu contribuinte."


"xxxxxxxxx"


"Exatamente!", disse, satisfeita. "O seu nome não é xxxxxxxxx?", perguntou, com uma voz vitoriosa.


"Sim, mas..."


"Pois, foi o senhor que ligou para aqui há pouco! E até tenho aqui um recado no computador a dizer para ligar para si, senhor xxxxxxxxxxx, quando tiver o seu problema resolvido!"


 


Por momentos, confesso que pensei que estava maluco. Sabia bem que nunca tinha ligado para aquela empresa, muito menos naquele dia, mas a certeza que a senhora demonstrava era desconcertante. Pensei, mais do que uma vez, em desligar o telefone, mas queria resolver o problema que tinha, por isso insisti.


 


"Desculpe, mas não pode ter aí nenhum recado para me ligar, nem a informação que liguei, porque eu sei bem que é a primeira vez que telefono para aí."


"Pois, mas eu... Espere aí...", pediu, calando-se em seguida durante uns segundos. "Peço desculpa, mas afinal estava enganada... Não sei o que é que se passa com o sistema informático, mas ao introduzir o seu número de contribuinte, ele disse-me o seu nome e introduziu-o na nota que eu tinha para ligar a um senhor que telefonou há pouco com exatamente o mesmo problema que o senhor. Desculpe, é muita coincidência, mas era o mesmo problema e o computador enganou-me..."


 


Desde aquele momento, e até ao fim do telefonema, perdi a conta ao número de vezes que a senhora me pediu desculpas, e eu pude respirar fundo. Porque concluí que nem eu estava maluco, nem a senhora. Mas que foi um dos telefonemas mais surreais que tive, foi.


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